Tuesday, June 24, 2008

Eleições

Luís Martins*

Uma coisa muito engraçada é que, em tempo de eleição, os homens perdem completamente essa aparência civilizada de cortesia, de boa educação, de finas maneiras, que os leva a insistir com os seus semelhantes para que entrem primeiro no elevador.

- Ora essa! Faça o favor!

Isto em tempos normais. Agora, como o elevador é pequeno e a fila dos candidatos é grande, cada qual vai tratando de empurrar os demais, de correr o mais que pode e, se acaso consegue penetrar na gaiola que o há de levar aos andares superiores, não há forças que o façam ceder o lugar aoconcorrente mais próximo.

Outra coisa que esquecem os homens, em tempo de eleição, é essa afetação de falsa modéstia que rege o comportamento normal de um indivíduo medianamente educado e que o impede de ficar por aí proclamando em altas vozes os seus méritos e virtudes. Pelo contrário. O hábito é diminuir-se, anular-se, fingir-se de insignificante.

- Eu, o mais obscuro dos membros desta casa…

- Absolutamente! Não apoiado. Vossa Excelência é um mestre.

Mas quando se trata de disputar os favores do eleitorado, não é assim que fala o cidadão. Sua linguagem é diferente:

- Votem em mim, que sou o maior! Votem em mim, que sou o tal! Votem em mim, que fiz isso e aquilo! Votem em mim, que sei tal coisa e sou capaz de tais proezas! Votem em mim, que sou inteligente, culto, honesto, trabalhador, ativo, diligente, formidável! Os outros candidatos não valem nada.

Por essas e outras estou convencido de que a eleição é uma força catártica que extrai do indivíduo convencional e polido, coberto de uma crosta falsa e superficial de civilização - o homem; o homem primitivo e o homem de sempre; o homem, com seus instintos, sua brutalidade inata, sua sede de competição e conquista, sua vaidade, seu orgulho e seu egoísmo; isto é, reconduz a espécie humana ao seu estado natural.

Coisa que - aqui entre nós - não é muito bonita de se ver.

* Crônica publicada no Livro “Futebol da Madrugada”, Livraria Martins Editora, 1957.


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Tuesday, June 10, 2008

Para viver um grande amor

Vinícius de Moraes*

Para viver um grande amor, é preciso muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo ; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


*Texto extraído do livro “Para Viver Um Grande Amor”, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984.



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